Se você convive com uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA), provavelmente já conhece a cena: o prato chega à mesa, e a resposta é um “não” firme. Às vezes é a textura, outras vezes o cheiro, a cor ou simplesmente o medo do desconhecido e para muitas famílias, a hora da refeição vira um momento de tensão.
Para ajudar nesse desafio, a Liga Acadêmica de Pediatria da Univille, sob supervisão do Dr. Júlio Koneski, desenvolveu a cartilha educativa “Para Familiares de Crianças com TEA e TARE: uma ferramenta de apoio ao manejo da seletividade alimentar”.
O material reúne 12 orientações práticas, baseadas na literatura científica, para transformar a refeição em uma experiência mais leve.
A cartilha parte de um ponto importante: a dificuldade alimentar não é “birra” nem falta de limites.
Segundo o material, ela é heterogênea e pode ter diferentes origens.
Algumas crianças têm mais sensibilidade sensorial; outras recusam alimentos por ansiedade diante de novidades.
Quando a família identifica o que causa o desconforto (textura, temperatura, cor, cheiro ou aparência), consegue adaptar a apresentação dos alimentos aos poucos, tornando a experiência mais confortável.
Uma das ideias centrais é que, no início, o objetivo não é que a criança coma, e sim que se familiarize com o alimento: tolerar sua presença, cheiro, aparência e textura já é uma conquista. Algumas estratégias que ajudam:
· Exposição gradual e repetida: a convivência frequente com o alimento aumenta a tolerância ao longo do tempo.
· Explorar os alimentos fora da refeição: brincadeiras, hortas, oficinas culinárias e atividades sensoriais permitem conhecer sem a pressão de ter que comer.
· Deixar a criança participar do preparo: lavar frutas, misturar ingredientes, organizar utensílios ou escolher alimentos nas compras estimula a autonomia e reduz a ansiedade diante do desconhecido.
· Um alimento novo entre os conhecidos: se a criança gosta de arroz e frango, uma pequena porção de um legume novo pode ser colocada no mesmo prato, sem exigir que ela coma na hora.
O comportamento alimentar varia conforme o ambiente. Pratos com divisórias, talheres menores e mesa e cadeira adequadas podem melhorar a aceitação. A previsibilidade também ajuda: horários organizados, recursos visuais e a antecipação das atividades ligadas à alimentação aumentam a segurança durante as refeições.
Talvez a mensagem mais importante da cartilha seja esta: a pressão costuma aumentar a aversão alimentar.
Castigos, coação e insistência excessiva podem reforçar a resistência e criar associações negativas com a hora de comer. A recomendação é respeitar o tempo da criança, valorizar cada pequena conquista e usar o reforço positivo.
Mas ultraprocessados por que são tão atraentes?
Crianças com TEA podem preferir alimentos previsíveis. Produtos industrializados de grandes marcas e alguns fast foods mantêm cor, textura, formato, cheiro e sabor muito parecidos de uma vez para outra, e é essa previsibilidade que facilita a aceitação.
Por isso, o material orienta que esses produtos não sejam a principal opção e que alimentos in natura ou minimamente processados também sejam oferecidos, de forma gradual e sem pressão. A cartilha sugere variar frutas, preparar legumes de formas diferentes (crus, cozidos ou assados) e alternar formatos, como batata em cubos, purê ou assada.
A última dica traz uma comparação simples. É muito mais provável aceitarmos um café quando ele já está pronto à nossa frente do que quando alguém pergunta “você quer um café?”. Com as crianças, a lógica é a mesma: o alimento cortado, limpo, descascado e ao alcance dela tende a ser mais eficaz do que a pergunta “quer comer?”.
Como as dificuldades alimentares podem envolver fatores sensoriais, comportamentais, emocionais e nutricionais, a cartilha reforça a importância do cuidado multiprofissional. Nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais, atuando de forma integrada, conseguem criar estratégias individualizadas e mais eficazes. A capacitação de pais e cuidadores também se mostra vantajosa na gestão das refeições.
Cada criança tem o seu ritmo, e o que funciona para uma família pode precisar de ajustes para outra. Se a seletividade alimentar está pesando na rotina da sua casa, a Clínica Neurológica está à disposição para ajudar.
📞 Central de Atendimento telefônico: (47) 3451-2525
Acesse a cartilha
Sobre a cartilha
Material educativo desenvolvido pela Liga Acadêmica de Pediatria da Univille, sob supervisão do Dr. Júlio Koneski.
Autores: Giulia Senem da Silva, Gabriel Martins Marcelino Silva, Amanda Kaori Narimatsu, Beatriz Soldaini Grieco Cabral de Mello, Estela Camilo, Geórgia Victória Gretzler Trenhago, Isabela Franco, Izadora Batistella, Steffani Camily Correa da Silva, Vítor Roesner dos Anjos e Júlio Amaro de Sá Koneski.
As orientações da cartilha são de caráter geral e educativo. Cada criança é única: converse com a equipe de saúde que acompanha seu filho para construir estratégias individualizadas.